Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, Italva, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana

No cinquentenário da OAB Campos

11 jul 2016, 15h46

Matéria publicada no jornal Folha da Manhã de domingo (10/7), Conselheiro Seccional, Marcos Bruno descreve o seu perfil na advocacia e reescreve história do Dr. Hécio Bruno seu pai.

Afonso Arinos costumava dizer que a história, só virava história, se contada meio século depois. O saudoso jurista, a quem tive a honra de entrevistar por breves minutos em evento do ‘Dia da Justiça’, no antigo Fórum de Campos (anos 80, quando começava na Faculdade de Direito), possivelmente não levou em conta a carta de Vargas, que de próprio punho dissera estar ‘deixando a vida para entrar na história’ e para a qual, de fato, entrara no dia seguinte.

Já em passado não tão distante, em conversa com o ex-ministro Roberto Campos no auditório da CDL, onde fazia palestra em plena campanha eleitoral para deputado, disse-me o ex-embaixador que no Brasil “até a história precisava ser desburocratizada e desregulamentada para que pudesse ser contada”.

Com as ressalvas que pessoalmente recebi dessas ilustres figuras dos cenários nacional e internacional, vejo-me diante da honrosa e difícil tarefa de discorrer algumas poucas linhas sobre personalidade cujo nome se confunde com a própria história da Advocacia campista e, não menos importante, de seu filho Marcos, que honra as bandeiras do pai e segue em plena atividade, a cada dia acrescentando novas linhas em sua vitoriosa biografia.

Aumentando a ‘saia justa’ de meu despreparo, o texto do amigo comum Murilo Dieguez, senão um nocaute, um knockdown nas minhas pretensões de retratar Marcos Bruno, visto que mais e melhor descrito no excelente texto publicado 6ª-feira aqui na Folha.
Assim, em brevíssimas pinceladas, ressalto o que fala por si: 1) Marcos está à frente de um escritório de Advocacia que caminha para 80 anos, desde que instalado por dr. Hecio, nas esquinas da Teotonio Ferreira de Araújo, então rua da Quitanda, com 7 de Setembro. Se estamos a falar de quase um século... dispensemos, então, comentários.

2) Não bastasse a relevância da ‘Medalha Sobral Pinto’, a alta comenda vai ser entregue em condições ainda mais especiais: a Presidência e diretoria estadual da OAB, instaladas no Rio, vão se deslocar até Campos justo para que a homenagem a seu conselheiro seja prestada simultaneamente com a instauração do ‘Plenário Hecio Bruno’ que, por sinal, foi o primeiro presidente eleito da Subseção local – coincidentemente há 50 anos.

Falecida no último dia 03 de julho, aos 94 anos, por menos de duas semanas a mulher de dr. Hecio não irá assistir às merecidas deferências de que serão alvo seu marido e filho. Uma pena só abrandada pelo fato de que o triunfo de ambos dona Maria de Jesus testemunhou, fartamente, ao longo de toda a vida.

Vasta cultura jurídica

Falar de Hecio Bruno é responsabilidade que exige conhecimento muito acima do modesto signatário. Diria, para não chover no molhado com adjetivos que se apequenam ante sua longa jornada de sucesso, ter sido um homem que conquistou conceito e renome graças à inteligência e ampla cultura jurídica, resultado de uma vontade voraz de estudar – o que fez todos os dias, a vida inteira.

Conheci o doutor Hecio quando tinha 20 e poucos anos e ele já perto dos 80. Na maioria das vezes oferecia [forçava] carona que o advogado, por gentileza, aceitava, – geralmente do Centro para sua casa. E nessas oportunidades não só aprendia como me divertia com suas histórias. Para além do homem culto e imponente era, também, solenemente engraçado.

Certa vez encontramo-nos num banco, lado a lado, em filas paralelas, e puxei conversa. Em determinada hora a caixa virou-se para ele, de longe, e disse: Olha, fechei com o senhor aí, heim! – querendo dizer que ele seria o último a ser atendido.
Observei que dr. Hécio não prestou atenção, mas fiquei na minha. Quis ver no que dava. E entra um, dois, três... até que a moça se deu conta e asperamente reclamou: Meu senhor... Não disse que era para fechar com o sr... E tá entrando um monte de gente aí...

Sem perder tempo e com o gestual que lhe era característico, disparou: – Como? Fechou comigo, é? Veja, minha cara... Seria um prazer secretaria-la, mas confesso não estar familiarizado com a linguagem bancária. Você me desculpe, mas venho aqui apenas para colocar meu dinheiro... E muito embora seu gerente insista em fazer ele meus depósitos enquanto tomo um cafezinho em sua mesa, prefiro entrar na fila a gozar de privilégios. Mas daí a fiscalizar ‘sua’ fila, pondo-me a vigiar quem nela entra ou deixa de entrar, são outros quinhentos...

Poucos meses antes de falecer disse-me, em outro encontro, que “esperava a morte de braços abertos” [aqui reproduzo ipsis litteris]; que estava estudando o Direito predominante na época do Império e, ainda, que se aprofundava em analisar a diferença entre ato e fato jurídico – penso eu que numa reflexão bem mais complexa do que se costuma aplicar.

Aluno de San Tiago Dantas e entusiasta da obra de Pontes de Miranda, foi um dos maiores advogados de Campos de todos os tempos e, no dizer de Evandro Lins e Silva, se quisesse ter ido para o Rio, seria um expoente da advocacia nacional.

Com Marcos, política veio antes

Sob todos os ângulos e sem favor algum, diria que Sobral Pinto está em ótimas mãos. O decano do Conselho da OAB do Rio, prestigiado advogado e de livre trânsito nos mais distintos ambientes, começou a vida encantando-se pela política. De presidente do Grêmio do Liceu à Federação dos Estudantes de Campos e, mais adiante, militante político de esquerda nos difíceis anos 60, – foi um pulo.

Cursando Direito no Rio, a política entrou feito luva na vida do jovem Marcos Bruno, que no Centro Acadêmico Ruy Barbosa participou dos primeiros movimentos de resistência à ditadura. Por aqueles meandros conheceu José Serra, então presidente da UNE; Ferreira Goulart e Moreira Franco – de quem, anos mais tarde, viria a ser secretário, na condição de presidente da Cocea.
Fundador do MDB, não tardaria a se transformar em habilidoso articulador político, terreno em que militou, paralelo à Advocacia, até a eleição de Tancredo. Contudo, sempre tendo em mente o alerta de Hecio: a Advocacia é uma mulher ciumenta que não admite concorrência.

Se o advogado esteve sempre presente, pode-se dizer que a política deu lugar à Universidade. Professor de Direito Civil e Comercial, implantou o curso de Direito na Cândido Mendes em 1998 sendo, mais tarde, seu coordenador – função que segue exercendo.

Visão – Sobre temas ligados à política de hoje, sente falta do respeito que predominava no passado. Acredita no avanço de Campos, mas adverte que o município perdeu a oportunidade do petróleo.

Cita Nilo Peçanha como o maior nome da política local e Ulisses Guimarães do Brasil. Na advocacia, Jayme Landim na terra goitacá e Sobral Pinto na esfera nacional. De Lula, uma frustração; da Era Dilma, uma constatação; e o PT, símbolo da corrupção. Pensa que o governo Temer, mesmo depois de confirmado, será transitório e gostaria de ver José Serra como presidente do País.

Trabalhando diariamente no escritório onde está há meio século, observa que, como dizia seu pai... Não estou mais para correr atrás de galinhola em campo aberto; prefiro cercar peru gordo em corredor.

* Atualização e correção da matéria em 14/07/2016

NOME DE PLENÁRIO E MEDALHA SOBRAL PINTO DESTACAM TRAJETÓRIAS NOTÁVEIS DE PAI E FILHO

Desta vez em feliz iniciativa que se coloca como exceção ao descuido usual que o município e em geral o Brasil têm para com sua memória histórica – tema tratado aqui no domingo passado – a OAB-Campos presta justíssima homenagem a Hecio Bruno, dando o nome do proeminente advogado ao auditório que inaugura na 5ª-feira, dia 14.

Registre-se que a proposição, longe de se prender a fronteira estreita, projeta-se em grande via de mão dupla e de recíproca valorização: tanto a entidade confere ao homenageado seu devido valor, quanto este empresta à Casa do Advogado a notoriedade de sua carreira, pavimentada ao longo de seis décadas de célebre atuação no mundo jurídico.

De ‘bônus’, a solenidade abriga um segundo evento que não diz respeito à memória – posto que ainda se escreve como advogado militante e educador – muito embora inscrito já esteja na história de Campos: Marcos Bruno recebe a Medalha Sobral Pinto, honraria que a OAB do Rio distingue a advogados que, completados 50 anos no exercício da profissão, são reconhecidos pela ilibada reputação, trajetória ímpar e notáveis serviços prestados à categoria.

“Plenário Hecio Bruno” e Medalha Sobral Pinto. Pai e filho sublinhados com honrosas manifestações. Planície goitacá orgulhosa.

Fonte: Jornal Folha da Manhã - Guilherme Belido Foto: Arquivo Folha da Manhã

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